Segunda-feira, 20 de Setembro de 2010

o carteiro toca sempre 2 vezes

 

 

Já nem me lembro quando, nem para quem e nem porquê escrevi uma carta pela última vez.

Os selos, o papel e a caneta parecem objectos jurássicos, caídos no esquecimento de muitos de nós. Hoje em dia , com a proliferação dos mais variados meios de comunicação à distância, são cada vez menos os que despendem uns quantos minutos a escrever uma carta.

Se fossemos ver a caixa de correio de milhões de portugueses veríamos lá muitas cartas , mas a maioria delas são facturas, o que demonstra bem o quão pouco se escrevem cartas manuscritas.

Actualmente , ao contrário de tempos já idos, todos se queixam da falta de tempo para fazer até as tarefas mais básicas. Se falta tempo para passar com os filhos , com os pais, com os amigos e com aqueles que nos acarinham, nem é de estranhar que falte tempo e vontade de escrever uma carta a alguém. Pega-se no telemóvel, liga-se o computador...puuuff...temos comunicação imediata e directa, por maior que seja a distância entre pessoas.

A tecnologia tem evoluído tanto , que, se assim o desejarmos , além da comunicação através da voz e da escrita no teclado, podemos ter uma comunicação visual, através de uma webcam ou do telemóvel.

Com todo este facilitismo e comodidade em contactar com alguém , quem se dá ao trabalho de escrever, meter selo , meter a carta nos correios e esperar uma carta como resposta à que enviou?! Poucos , tão poucos. Cada vez menos.

Tenho estado a ver se me lembro da última carta que escrevi , mas está realmente difícil. Agora , já nem nas épocas festivas( Natal, Páscoa, Ano Novo) , nem nos aniversários de familiares e amigos mando cartas ou postais. Agora, assumindo o meu lugar na lista daqueles que usam outros meios de comunicação , opto por telefonar , mandar mensagem ou enviar email.

Apesar de recorrer a essas formas de comunicação , ainda não caio na tentação, que a mim me desagrada, de enviar mensagens e emails com frases padrão, daquelas que se escolhem num catálogo na internet e que assumimos como nossas. Posso não ''perder'' tempo a escrever uma carta , mas ''perco'' todo o tempo a escrever uma mensagem personalizada, como se fosse um alfaiate a fazer um fato apropriado para aquela pessoa,só para ela.

 

 

 

Ora, mas afinal quando escrevi eu a última carta?! Sinceramente , não me lembro. Se não me lembro, quase de certeza foi há muuuiiiiito tempo.

Não me lembro da última carta , mas tenho bem presente na memória, apesar dos anos que já passaram , a quantidade de cartas que escrevia e que recebia de um amigo e vizinho de infância, que, por volta dos nossos 11 ou 12 anos, emigrou para terras do tio Sam. No sótão, algures numa caixa perdida entre tantas outras, ainda sobrevivem muitas dessas cartas. Uns anitos mais tarde, devido a uma mudança de residência dele, acabámos por perder contacto.

Uma outra fase em que escrevi muitas cartas , foi quando frequentava o inicio do ensino secundário. Antigo como sou , ainda sou do tempo da existência dos penpals, que não só permitiam o estudo da lingua inglesa, como também permitiam o contacto com outros jovens da nossa idade , mas a viverem noutros países , em realidades muito diferentes da nossa. Uma experiência enriquecedora , sem dúvidas!

E cartas de amor, quem as não escreveu? Eu escrevi umas poucas. As que me foram escritas foram bem menos, que cá o moço não despertava muito as hormonas do sexo oposto. Das que recebi , entre livros e cadernos empoeirados, guardo-as também. Vai ser giro, já velhinho e meio caquéctico, poder relê-las. Sei , de fonte segura, que algumas das que escrevi nos tempos de escola ainda resistem ao tempo e à fogueira, apesar da destinatária já ser mãe. Mãe, mas ainda tão bonita e parecida com a Pocahontas, como era então.

Saudosismos à parte , porque, inevitavelmente, o tempo passa e as vidas e os sentimentos mudam, é com alegria que sei que alguém guardou algo escrito por mim, há muito tempo. Os sentimentos mudaram, eu e ela mudámos, mas as palavras naquelas cartas e bilhetes permanecem as mesmas, indiferentes à passagem dos anos.

É essa uma das grandes ''magias'' das cartas manuscritas : conservam e despertam memórias e vivências. É pena que hoje em dia se apaguem essas memórias com a mesma facilidade que se apaga uma sms ou um email.

Uma carta , porque para se rasgar tem de segurar, tem de se tocar, de se ver, quiçá, ler um pouco, é muito mais difícil de eliminar. Tem uma presença física e palpável...tem a letra de alguém que queremos ou quisemos bem...tem , nalguns casos, um cheiro especial...Resumindo, tem um pouco de nós e de mais alguém.

Quem rasgaria com facilidade, sem pensar 2 vezes, um pedaço de nós ou de alguém?

E é com esta pergunta que acabo o post , sem ainda me conseguir lembrar de qual foi a última carta que escrevi. A PDI é tramada!

 

 

 

segredo revelado: Dei por mim a pensar : Será que estes posts que aqui vou escrevendo, podem ser considerados cartas?

Não há papel, caneta e nem há selos. Muitas das vezes , nem sequer há um destinatário directo. São cartas ''privadas'', mas abertas ao público. São cartas escritas a desconhecidos, que, por sua vez, as recebem de um desconhecido também.

Serão cartas? Se forem , então foi hoje o dia em que escrevi a última carta.

....

 

"Escrever cartas é a maneira mais deliciosa de perder tempo." (John Morley).

 

"Assim como as chaves abrem cofres, as cartas abrem corações." (James Howell)

 

 

 

publicado por segredo_revelado às 16:13
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